Uma das características mais importante da Filosofia é a multiplicidade de perspectivas, evitando imposições doutrinárias. Um currículo de Filosofia deve contemplar a diversidade sem desconsiderar o professor em suas posições, nem impedir que ele as defenda. A orientação geral de um currículo de filosofia pode tão somente ser filosófica, e não especificamente de uma linha filosófica ou de filosofias, mesmo que isso seja uma posição do professor. Por outro lado a filosofia condiciona o saber ou a busca do conhecimento ao questionamento como possibilidade de formação de uma consciência crítica, capaz de criar outros modos de pensar e ver a realidade.
IDENTIDADE DA FILOSOFIA
A filosofia está identificada pela historia da filosofia, não por uma parte, mas pelo seu todo diverso e articulado em cada momento histórico. Desde os primeiros filósofos até o momento, todos pensavam e pensam a realidade enquanto tal para dela extrair suas conclusões, pois todo conhecimento filosófico significa conhecimento da realidade enquanto tal na sua totalidade, articulado por uma capacidade de repensar as coisas para produção de novas idéias, aprofundando ainda mais o conhecimento sobre elas.
Cada filósofo tem sua particularidade na construção do pensamento filosófico, que se dar em diferentes contextos da história do homem e sempre procurará responder baseado nos conceitos pelos quais elabora seu pensamento. Sempre dependerá da opção por um modo determinado de filosofar que considere justificado. Portanto o caráter fundamental da filosofia está centrado na evolução histórica da própria filosofia, que procura responder em todas as fases da história do homem as questões mais intrigantes que o envolvem, e que pela dinâmica da história e pela realidade mutável das coisas torna essencial o pensar e necessário o repensar das coisas.
Amar a sabedoria é muito mais que “conhecer” as coisas, é extrair algo mais das coisas é repensar o pensado. O ensino de Filosofia não representa um conjunto de doutrinas, mas um desafio pela busca da essencialidade das coisas, daquilo que está implícito.
A história da Filosofia significa sobretudo a evolução do pensamento humano, de forma sistemática em cada momento da história da humanidade, isso é importante na construção do pensar pós-moderno ou contemporâneo. No entanto isso não significa pensar o pensado, mas repensar o pensado para construção de um pensar atual, contextualizado, sistemático como possibilidade de afirmação do homem que busca saber, que deseja conhecer como fizeram todos os que nos antecederam na construção da história da Filosofia.
No ensino de filosofia antes de qualquer coisa temos que falar em filosofia e não em filosofias, pois estas evidenciam tão somente a diversidade e complexidade dos modos e correntes filosóficas. É claro que quando tratamos de filosofia não podemos jamais fugir do que foi construído filosoficamente, nesse sentido o ensino deve possibilita uma visão sistemática da evolução da filosofia. Portanto temos que permitir ao aluno essa possibilidade de saber prioritariamente o que é filosofia e não filosofias, pois estas serão conhecidas naturalmente através do estudo da história da filosofia.
A atividade filosófica focaliza seu agir na reflexão como possibilidade de justificar a necessidade do questionar a natureza, e suas possíveis mutações. Assim o repensar a realidade é condição básica para o agir humano e a critica é a capacidade de não manter este repensar como algo absoluto ou inquestionável. Neste sentido tanto a capacidade natural de repensar a realidade como a crítica são elementos fundamentais para a construção de uma filosofia sistemática.
Cabe, então, especificamente a Filosofia a capacidade de análise, de reconstrução racional e de crítica, a partir da compreensão de que tomar posições diante de textos propostos de qualquer tipo (textos filosóficos ou não e formações discursivas não explicitadas em textos) e emitir opiniões acerca deles é um pressuposto indispensável para o exercício da cidadania.
É recomendável que a História da Filosofia e o texto filosófico tenham papel central no ensino da Filosofia, ainda que a perspectiva adotada pelo professor seja temática, não sendo excessivo reforçar a importância de se trabalhar com os textos propriamente filosóficos e primários, mesmo quando se dialoga com textos de outra natureza, literários e jornalísticos, por exemplo.
OBJETIVOS DA FILOSOFIA NO ENSINO MÉDIO
A Filosofia cumpre sua tarefa na formação, à medida que articula noções de modo bem mais duradouro que outros saberes, mais suscetíveis de serem afetados pelas inconstâncias das informações. Ela não pode ser um conjunto sem sentido de opiniões, um sem número de sistemas desconexos a serem guardados na cabeça do aluno que acabe por desencorajá-los.
Os conhecimentos de Filosofia devem ser para ele conhecimentos vivos e adquiridos como apóio para a vida, pois do contrário dificilmente teriam sentido para um jovem nessa fase de formação.
O Objetivo da disciplina não é apenas propiciar ao aluno um mero enriquecimento intelectual. Ela é parte de uma proposta de ensino que pretende desenvolver no aluno a capacidade para responder, lançando mão dos conhecimentos adquiridos, as questões advindas das mais variadas situações. Essa capacidade de resposta deve ultrapassar a mera repetição de informações adquiridas, mas, ao mesmo tempo, apoiar-se em conhecimentos prévios.
COMPETÊNCIAS E HABILIDADES EM FILOSOFIA
É a capacidade de criar, da curiosidade, de pensar múltiplas alternativas para a solução de um problema, ou seja, do desenvolvimento do pensamento crítico, da capacidade de trabalhar em equipe, da disposição para procurar e aceitar críticas, da disposição para o risco, de saber comunicar-se, da capacidade de buscar conhecimentos.
A Filosofia tem como tarefa especifica e fundamental, fazer o estudante chegar a uma competência discurso-filosófico. O desenvolvimento geral de competências comunicativas, o que implica um tipo de leitura, envolvendo capacidade de análise, de interpretação, de reconstrução racional e de crítica.
É imprescindível que o estudante do ensino médio tenha interiorizado um quadro mínimo de referências a partir da tradição filosófica, o que nos conduz a um programa de trabalho centrado primordialmente nos próprios textos dessa tradição, mesmo que não exclusivamente neles.
O papel do professor, ao desenvolver habilidades, não é incutir valores, doutrinar, mas sim “despertar os jovens para a reflexão filosófica, bem como transmitir aos alunos do ensino médio o legado da tradição e o gosto pelo pensamento inovador, crítico e independente”.
CONTÉUDOS DE FILOSOFIA
O ensino de filosofia não oferece uma seqüência de dados a serem decorados, mas condição suficiente para um desejo maior pelo saber, pelo conhecimento, e mesmo que se tenha que recorrer aos conteúdos histórico-filosóficos estes só terão sentido para a filosofia quando aplicados a reflexão. Por outro lado o caráter dinâmico da filosofia tende a conduzi-la para uma nova visão da realidade, pois não fica estática, parada ou presa aos modos de pensar já construídos anteriormente, mas diante de uma realidade mutável procura estabelecer novas linhas de pensamentos capaz de explicar a realidade atual e suas conseqüências.
Neste sentido a leitura dos textos filosóficos, a elaboração escrita de modo reflexivo, o debate de conteúdos e outros elementos que possam favorecer a capacidade crítica-filosófica são sempre elementos fundamentais para que tais conteúdos alcance seu maximo aproveitamento. É importante que os conteúdos e conhecimentos filosóficos estejam sempre articulados com diferentes outros conteúdos das ciências naturais e humanas, nas artes e nas produções culturais, além da necessidade contextualização dos mesmos.
“A Filosofia é teoria, visão crítica, trabalho do conceito, devendo ser preservada como tal e não como um somatório de idéias que o estudante deva decorar.” Portanto cabe ensinar Filosofia acompanhando ou, pelo menos, respeitando o movimento do pensar á luz de grandes obras, independentemente do autor ou da teoria escolhida
METODOLOGIA
A filosofia não diferente de outros campos de estudos tem sua peculiaridade, ou seja, seu conteúdo especifico, que deverá ser trabalhado. No entanto a concepção metodológica em filosofia está longe de ser aquela ideal, os fatores para isto são os mais variados, vão desde a ruptura do ensino de filosofia no Brasil até a indefinição dos conteúdos a serem aplicados em sala e o ensino por parte de profissionais que não tem formação na área. Muitos desses professores exerce o ensino de filosofia como mera aplicação de conteúdos sem levar em conta a atividade reflexiva que é elemento fundamental do ensino de filosofia. Tal limitação desvirtua o real papel do ensino de filosofia que é basicamente trabalhar a consciência crítica dos jovens em relação as suas próprias realidades político, cultural e social.
É difícil que um profissional que tenha formação em outra área possa exercer uma área que não seja aquela de sua formação, caso contrario por mais próxima que estejam estas áreas nunca terão competências para destinar os conteúdos ao foco daquela determinada área. Esse pode ser considerado um dos grandes problemas do ensino de filosofia no Brasil, mudança de foco e ausência da atividade reflexiva.
O ensino de filosofia tem uma característica da busca do novo, através de temas clássicos da filosofia, mas não apenas a repetição de conteúdos filosóficos anteriores a nossa contemporaneidade. Os clássicos e a história da filosofia é meio que conduz o estudante a uma construção racional sistemática, organizada além de oferecer elementos possíveis para uma visão critica e reflexiva da realidade. A construção racional será sempre algo orientado nunca imposto, porque somente através da atividade reflexiva o individuo tira suas conclusões de forma livre, contrariando ou aceitando de acordo com a capacidade de sua consciência crítica, não fugindo jamais do sentido primordial da filosofia.
Portanto o profissional de Filosofia poderá desenvolver projetos que torne a participação ativa, dialogada, formando no jovem a capacidade de interação com a realidade em sua totalidade e mais especificamente na relação com outras áreas do conhecimento, mas sem perder de vista o verdadeiro objeto de estudo da filosofia. Por outro lado não basta ser um bom profissional tem que saber relacionar os saberes com os diferentes contextos da filosofia, dos alunos, da escola e da sociedade. Desta forma o profissional de Filosofia não atenderá apenas o desejo de ministrar uma boa aula, mas de fazer essa boa aula acontecer, seja através da contextualização dos conteúdos, da socialização do conhecimento ou da atividade reflexiva, que interagindo com o contexto social de cada um possa dar sentido ao conhecimento filosófico e a consciência critica como elemento de transformação da sociedade.
Referencias:
MEC. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior.
Parecer CNE/CES n° 492/2001, aprovado em 3 de abril de 2001. Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de Filosofia, História, Geografia, Serviço Social, Comunicação Social, Ciências Sociais, Letras, Biblioteconomia, Arquivologia e Museologia. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 9 de julho de 2001. Seção 1, p. 50.
Ciências humanas e suas tecnologias / Secretaria de Educação Básica. – Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2006.133 p. (Orientações curriculares para o ensino médio ; volume 3).
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